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Do encontro nasce o anúncio

por Aline Peres - Jornalista

Os primeiros cristãos foram comunicadores por excelência e isso se deve à experiência que tiveram com Jesus e o Espírito Santo. “Mas o Espírito Santo descerá sobre vocês, e dele receberão força para serem minhas testemunhas em Jerusalém, em toda Judeia e Samaria, e até os extremos da terra” (At 1,8). Ao enviar o Paráclito sobre os apóstolos, Jesus anuncia que eles passam ser suas testemunhas.

Da mesma forma o agente da Pastoral da Comunicação é chamado a testemunhar o Evangelho. Esse testemunho no sentido de ser uma “pessoa chamada a prestar depoimento”. Quem nos chama é o próprio Deus e esse chamado é uma vocação e uma herança do Criador. “Criado à imagem e semelhança de Deus, o ser humano se comunica não por uma exigência, mas por um dom natural; não por uma ordem, mas por uma vocação” (Diretório da Comunicação, n. 36).

Na condição de testemunhas do amor de Deus, somos chamados a ter intimidade com Sua Palavra, para isso o comunicador deve cultivar sua espiritualidade. A intimidade só acontece quando há contato, proximidade, assim, a oração diária e familiaridade com o Evangelho e os ensinamentos de Cristo é quem o fortalece na missão e dá sentido ao seu agir. “O comunicador católico de hoje é, em primeiro lugar, chamado a viver em uma profunda harmonia e sintonia com a espiritualidade” (Diretório da Comunicação, n.21).

A essência da mensagem do Agente Pastoral da Comunicação é o Evangelho. Portanto, antes de ser aquele que difunde a Boa Nova, ele deve ser um ouvinte atento e assíduo e buscar formação evangélica. “A Sagrada Escritura é fonte da evangelização. Por isso é preciso formar-se continuamente na escuta da Palavra. A Igreja não evangeliza se não se deixa continuamente evangelizar”. (Papa Francisco – Evangelii Gaudium , n. 174)

O chamado-vocação ao anúncio do Evangelho entre os primeiros cristãos era fortalecido também pela vivência em comunidade. Em Atos dos Apóstolos essa característica fraterna entre os protagonistas do anúncio de Cristo é bem retratada. “Eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, no partir do pão e nas orações. […] Todos os que abraçaram a fé eram unidos e colocavam em comum todas as coisas […] Diariamente, todos juntos frequentavam o Templo e nas casas partiam o pão, tomando o alimento com alegria e simplicidade de coração” (At 2, 42-46)

Os apóstolos, a partir da experiência pessoal com Cristo e o derramamento do Espírito Santo saíram para anunciar. É uma demonstração de que a missão e a vida pessoal daqueles homens estavam em sintonia. Da mesma forma, o comunicador católico é aquele que fala, que comunica a si mesmo e sua experiência com Jesus – o Deus amigo – e sua vivência fraterna com os irmãos. “Do encontro nasce o anúncio. E o anúncio fundamental é o ‘amor pessoal de Deus que Se fez homem, entregou-Se a Si mesmo por nós e, vivo, oferece sua salvação e a sua amizade’”. (Diretório da Comunicação, n.14)

Paira sobre a comunicação na Igreja o aspecto trinitário. Pai, Filho e Espírito Santo em ação. Ao se encarnar, fazendo-se semelhante aos homens, Jesus tornou-se palavra viva e sua doação deixou uma herança que fortalece a caminhada do comunicador: Palavra e Sacramentos. “[…] a comunicação de Cristo, é Espírito e Vida. (Jo. 6 63.) Assim, pela instituição da Eucaristia, Ele legou-nos a mais perfeita comunhão a que o homem na terra pode aspirar: a comunhão entre Deus e os homens, que traz consigo o mais alto grau de união dos homens entre si; Comunicou-nos, em seguida, o seu Espírito vivificador, princípio de unidade e fermento de congregação. Na Igreja, enfim, Corpo Místico e plenitude escondida de Cristo glorificado, o mesmo Cristo tudo abraça e tudo consuma; (Ef. 1, 23; 4, 10) integrados, pois, nesta Igreja e provocados pela Palavra e Sacramentos que nos comunica, caminhamos na esperança daquela comunhão definitiva, quando “Deus for tudo em todos”. (Cor. 15, 28). (Instrução pastoral “Communio et Progressio” – sobre os meios de comunicação social, publicada por mandato do Concilio Ecumênico II do Vaticano, n 11)

Um trecho do sermão de Santo Agostinho, a partir do Prólogo de São João, traduz a essência da espiritualidade do comunicador cristão, que vive em comunhão com Cristo e com os irmãos. “Se quero, porém, falar contigo, procuro o modo de fazer chegar ao teu coração o que já está no meu. Procurando então como fazer chegar a ti e penetrar em teu coração o que já está no meu, recorro à voz e por ela falo contigo. O som da voz te faz entender a palavra; e quando te fez entendê-la, esse som desaparece, mas a palavra que ele te transmitiu permanece em teu coração, sem haver deixado o meu. Não te parece que esse som, depois de haver transmitido minha palavra, está dizendo: É necessário que ele cresça e eu diminua? (Jo 3,30). A voz ressoou, cumprindo sua função, e desapareceu como se dissesse: Esta é a minha alegria, e ela é completa (Jo 3,29). Guardemos a palavra; não percamos a palavra concebida em nosso íntimo”. (Também citado na apresentação do Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil/2014).

A intimidade só acontece quando há contato, proximidade, assim, a oração diária e familiaridade com o Evangelho e os ensinamentos de Cristo é quem o fortalece na missão e dá sentido ao seu agir.

Aline Peres

Jornalista

Membro da Pastoral da Comunicação

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