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Espiritualidade: um contraponto entre o ser e o ter

por Aline Soleane Carmo Braga - Nutricionista

O ser humano nasce na incompletude: um vazio inerente ao não conhecimento de onde viemos nem para onde vamos, o desconhecimento natural do ser limitado –  humano. É a chamada brecha antropológica. É na consciência de um vazio entre a experiência e a fantasia, tentando compreender a origem do nascimento e o aparente fim representado pela morte, que o homem caminha na busca pelo conhecimento de si mesmo.

A Antropologia considera estar aí, na tentativa de compreender a origem da vida e sobretudo a morte, o início de um caminhar irreversível ao encontro do mistério, ou do conhecimento mais próximo que se possa ter dele e de seus fascínios. A Psicanálise, por sua vez, aponta os desejos humanos, nossas buscas, como sintomas, expressões de uma condição de falta. A realidade humana leva a busca por saciedade através da satisfação dos desejos. Infelizmente, em nossa sociedade, a saciedade dessa busca vem, muitas vezes, expressa na materialidade que cerca os indivíduos, sobretudo no contexto de uma sociedade baseada no consumo. Porém, a busca pela compreensão de nossas questões existenciais não é traduzível por algo a ser consumido.

Nesse ínterim, atua a Espiritualidade, como um processo de sutilização diante da vida, pois configura uma busca despida das necessidades e condicionais que ligam a felicidade e o saber à posse material e apenas ao conhecimento limitado ao descritível, ao visível e ao considerado/apresentado como real. A mística e a espiritualidade apresentam uma nova realidade, o contato com um entendimento que vai além do real pura e simplesmente ligado à razão.

A busca pelo conhecimento desse mistério logo se relaciona ao Sagrado, a algo inexplicável, apofágico¹, entre o distante e o inquietantemente próximo e inerente. O Sagrado traz a marca do Mysterium tremendum et fascinans: algo que vai além das realidades deste mundo, que incute temor (racional), mas é também cercado de fascínio, atraente, que transcende a razão humana (Otto, 1917 apud. Usarski, 2004). A caminhada mística, marca da busca pelo Sagrado, é a procura pelas respostas fundamentais à vida, sendo assim um conhecimento profundamente ligado à experiência individual, íntima e de êxtase. A mística é, portanto a experiência e vivência de um Sagrado, perpassada por compromissos éticos, tais como honestidade, bondade, caráter e práticas que levam a abertura à Deus enquanto manifestação máxima de uma sacralidade. O processo místico, por ser fundamentado na experiência, desencadeia rupturas consideráveis no estilo de viver e de compreender a vida.

A espiritualidade, experiência da mística, é a construção pessoal na busca pelo sentido profundo para as questões existenciais, faz parte de todo ser humano, independentemente de orientação religiosa, e representa uma peregrinação marcada pelo constante estado de “devir”: devo me tornar, devo ser. O ser humano na busca espiritual é um ser em transcendência, cujo objetivo é ir além do que a razão pura e simplesmente é capaz de oferecer como lente para observar o mundo e compreendê-lo.

1 – Apofágico: impossível de ser descrito, compreendido totalmente.

 

REFERÊNCIAS

USARSKI, Frank. Os Enganos sobre o Sagrado – Uma Síntese da Crítica ao Ramo “Clássico” da Fenomenologia da Religião e seus Conceitos-Chave. Revista de Estudos da Religião, nº4, 2004, p. 73-95.

BINGEMER, Maria Clara. O Mistério e o Mundo. Paixão por Deus em tempos de descrença. Rocco, Rio de Janeiro, 2013, 480 p.

 

Aline Soleane Carmo Braga

Nutricionista

Catequista da Pastoral da Crisma e integrante da Pastoral da Comunicação. É pós-graduada em "Diante do Sagrado: mística e espiritualidade para os novos tempos" pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas).

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